de repente o tempo muda. de sol para vento forte e frio. muda como mudo. minha mente dá mil voltas entre altos e baixos. sou natureza selvagem. acostumada a baixas e altas temperaturas. a calmarias e ventos fortes. me fiz assim. a construção inicial foi móvel. volátil. imprecisa. minha raiz sou eu mesma aonde quer que eu vá. finco minhas pegadas pra logo sair. ir para outros sítios. errante é minha alma. não se contenta em estar. quer sentir a mais pura verdade. incabível. a verdade sentida é subjetiva. pois apenas eu a sinto. a natureza me acompanha nos dias e noites. na noite, em silêncio, oculta meus pensamentos mais secretos. de dia ilumina o quarto marcando que é hora. o ritual diário me cansa. cansa ter que fazer tudo aquilo que sabemos que se vai. bonito é nós irmos. como as ondas do mar que vem, transformam aquele espaço de areia e voltam ao mar. gosto de transformar espaços. torná-los mais bonitos. talvez a cada transformação modifico um pouco mais em mim o que tenho de tanta sombra. meu sorriso irradia o sol. não sou indiferente a sua luz, ele me ilumina. hoje to assim meio água que corre, folha que cai, mato verde que se estende até tocar o céu. minha inconstância, agora apaziguada, sente-se bem em ouvir esse sopro forte dos ventos na janela. a maré sobe. o mar deve estar revolto em toda ilha. me solidarizo com ele e entendo a sua força, toda tormenta que envolve também meu ser, calmo, estático embora revolto e sempre inquieto!
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
de repente o tempo muda. de sol para vento forte e frio. muda como mudo. minha mente dá mil voltas entre altos e baixos. sou natureza selvagem. acostumada a baixas e altas temperaturas. a calmarias e ventos fortes. me fiz assim. a construção inicial foi móvel. volátil. imprecisa. minha raiz sou eu mesma aonde quer que eu vá. finco minhas pegadas pra logo sair. ir para outros sítios. errante é minha alma. não se contenta em estar. quer sentir a mais pura verdade. incabível. a verdade sentida é subjetiva. pois apenas eu a sinto. a natureza me acompanha nos dias e noites. na noite, em silêncio, oculta meus pensamentos mais secretos. de dia ilumina o quarto marcando que é hora. o ritual diário me cansa. cansa ter que fazer tudo aquilo que sabemos que se vai. bonito é nós irmos. como as ondas do mar que vem, transformam aquele espaço de areia e voltam ao mar. gosto de transformar espaços. torná-los mais bonitos. talvez a cada transformação modifico um pouco mais em mim o que tenho de tanta sombra. meu sorriso irradia o sol. não sou indiferente a sua luz, ele me ilumina. hoje to assim meio água que corre, folha que cai, mato verde que se estende até tocar o céu. minha inconstância, agora apaziguada, sente-se bem em ouvir esse sopro forte dos ventos na janela. a maré sobe. o mar deve estar revolto em toda ilha. me solidarizo com ele e entendo a sua força, toda tormenta que envolve também meu ser, calmo, estático embora revolto e sempre inquieto!
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
carne crua _ perséfones
dentro do baú tinha um tesouro. não dos comuns. eram armas afiadas mesmo pelo tempo em desuso. cabos pesados. laminas de aço. mais adiante artefatos com jóias, pequenas pedras, brilhantes, alguns alfinetes. no baú desse sonho tinha um registro. antigo. nada se podia ler. indecifrável o cojunto daquelas coisas. não era bem um baú. a dinamica da abertura da caixa era moderna para aqueles tempos. tinha um código. simples para hoje. ela se abria, a caixa, com um encaixe giratório. de repente um tempo. distante. pesado e leve. de armas e jóias. o registro ficou na memória. aquele sonho. levantou. carne crua e desnuda. algo que não tocava. não alcançava. algo no imaginário ficara daquele sonho. levara-a há tempos remotos. a imagem da caixa-baú, negra do ferrugem. mas o segredo fora aberto, pois penetrara no conteúdo daquela mágica do sonho. fazendo o café. abrindo as janelas. olhou no espelho. quem agora era? talvez fosse pedaços de vários tempos. talvez não fosse o que agora via. no fundo sabia que o conteúdo daquele sonho, era mais do que ela sabia dela refletida no espelho. quantos neste momento refletem o que na realidade desconhecem? que parte era ela daquele sonho? vestiu-se como de costume. atravessou umbrais, grandes portões. despediu-se de Ades, amistosamente. pulou correntes, evitou sussurros. os gritos de lamentos eram sua rotina. o sonho, talvez, trouxesse à tona as pequenas pedras preciosas que sabia existir naquele limbo. era sua tarefa. destemida e acostumada ao escuro, andava entre gemidos, gritos e lamentos. mãos se estendiam de todos os cantos. não as temia. ao contrário, estendia as suas ao encontro de cada uma. como se dizendo, aguardem que chegarei. após toda caminhada, sabia que ultrapassaria o portal. isso era bom. novos ares. novos trabalhos. uma quebra de rotina. subiu. a luz ofuscou um pouco a primeira imagem que viu. isso era comum. acostumar-se à luz. quando vira a caixa aberta do sonho, aquelas jóias, pequenas e lindas, talvez fossem dela. não soube decifrar. mas havia algo, algum decreto, alguma lei guardada por armas das mais bem feitas, artesanalmente. disso não esquecera. entre corpos, rostos e expressões seguiu seu caminho de costume. naquele dia sabia aonde deveria ir. era um lamento mais forte que o de costume. ergueu os olhos para além da luz que ofuscava. num canto viu algo que se contorcia. não sabia por que. chegou mais perto. avistou um rosto belo de quase um anjo. doce. meigo. lindo. o que ela via era lindo. talvez, para os que ali passavam, nada viam a não ser um farrapo de gente, de coisa, de humano. quanto mais ela se aproximava, mais ele brilhava em contorções. mais ele falava em gritos e gemidos. mais ele olhava em doçura e pavor. quem poderia ver estes lados? numa mesma face a dor e a extrema alegria e prazer. essa era a figura que se desenhava naquele canto de mundo. chegou mais perto. abaixou. pousou suas mãos pesadas, cicatrizadas, vividas em direção aquele anjo contorcido. olhos grandes e meigos viram as mãos que se estendiam. uma dor imensa tomou conta dos dois corações. mas este era o trabalho dela. olhos contorcidos, membros retesados, a fúria e a dor inconteste! a negação! devagar susssurrou algo ao ouvido deste ser imerso na plena e consciente loucura de não mais querer ser. isso era comum acontecer no seu trajeto. muitos, muitos desistiam de ser. porque ser nestas condições humanas, ditas humanas, melhor negar, e não ser. por isto muito deles se contorciam nos cantos do mundo. porque não era ainda a hora. mas eles já não eram mais. pura dor? puro niilismo? covardia? para ela não importava. naquele momento a caixa se abriu. viu a pequena pedra precisosa, sem a definir, pois mal tivera contato com estas coisas. sempre habitara os umbrais. os olhos meigos a olharam. sem implorar. sem pedir. sem falar. eles entenderam este momento. as mãos se deram. ele de uma contorção, um espasmo,uma contração quase mortal, levantou-se e a seguiu. ela sabia que resgatara mais um. voltou. desceu. fechou. dormiu. os pequenos brilhantes rondavam seu sonho sem que ela soubesse por quê!
dentro do baú tinha um tesouro. não dos comuns. eram armas afiadas mesmo pelo tempo em desuso. cabos pesados. laminas de aço. mais adiante artefatos com jóias, pequenas pedras, brilhantes, alguns alfinetes. no baú desse sonho tinha um registro. antigo. nada se podia ler. indecifrável o cojunto daquelas coisas. não era bem um baú. a dinamica da abertura da caixa era moderna para aqueles tempos. tinha um código. simples para hoje. ela se abria, a caixa, com um encaixe giratório. de repente um tempo. distante. pesado e leve. de armas e jóias. o registro ficou na memória. aquele sonho. levantou. carne crua e desnuda. algo que não tocava. não alcançava. algo no imaginário ficara daquele sonho. levara-a há tempos remotos. a imagem da caixa-baú, negra do ferrugem. mas o segredo fora aberto, pois penetrara no conteúdo daquela mágica do sonho. fazendo o café. abrindo as janelas. olhou no espelho. quem agora era? talvez fosse pedaços de vários tempos. talvez não fosse o que agora via. no fundo sabia que o conteúdo daquele sonho, era mais do que ela sabia dela refletida no espelho. quantos neste momento refletem o que na realidade desconhecem? que parte era ela daquele sonho? vestiu-se como de costume. atravessou umbrais, grandes portões. despediu-se de Ades, amistosamente. pulou correntes, evitou sussurros. os gritos de lamentos eram sua rotina. o sonho, talvez, trouxesse à tona as pequenas pedras preciosas que sabia existir naquele limbo. era sua tarefa. destemida e acostumada ao escuro, andava entre gemidos, gritos e lamentos. mãos se estendiam de todos os cantos. não as temia. ao contrário, estendia as suas ao encontro de cada uma. como se dizendo, aguardem que chegarei. após toda caminhada, sabia que ultrapassaria o portal. isso era bom. novos ares. novos trabalhos. uma quebra de rotina. subiu. a luz ofuscou um pouco a primeira imagem que viu. isso era comum. acostumar-se à luz. quando vira a caixa aberta do sonho, aquelas jóias, pequenas e lindas, talvez fossem dela. não soube decifrar. mas havia algo, algum decreto, alguma lei guardada por armas das mais bem feitas, artesanalmente. disso não esquecera. entre corpos, rostos e expressões seguiu seu caminho de costume. naquele dia sabia aonde deveria ir. era um lamento mais forte que o de costume. ergueu os olhos para além da luz que ofuscava. num canto viu algo que se contorcia. não sabia por que. chegou mais perto. avistou um rosto belo de quase um anjo. doce. meigo. lindo. o que ela via era lindo. talvez, para os que ali passavam, nada viam a não ser um farrapo de gente, de coisa, de humano. quanto mais ela se aproximava, mais ele brilhava em contorções. mais ele falava em gritos e gemidos. mais ele olhava em doçura e pavor. quem poderia ver estes lados? numa mesma face a dor e a extrema alegria e prazer. essa era a figura que se desenhava naquele canto de mundo. chegou mais perto. abaixou. pousou suas mãos pesadas, cicatrizadas, vividas em direção aquele anjo contorcido. olhos grandes e meigos viram as mãos que se estendiam. uma dor imensa tomou conta dos dois corações. mas este era o trabalho dela. olhos contorcidos, membros retesados, a fúria e a dor inconteste! a negação! devagar susssurrou algo ao ouvido deste ser imerso na plena e consciente loucura de não mais querer ser. isso era comum acontecer no seu trajeto. muitos, muitos desistiam de ser. porque ser nestas condições humanas, ditas humanas, melhor negar, e não ser. por isto muito deles se contorciam nos cantos do mundo. porque não era ainda a hora. mas eles já não eram mais. pura dor? puro niilismo? covardia? para ela não importava. naquele momento a caixa se abriu. viu a pequena pedra precisosa, sem a definir, pois mal tivera contato com estas coisas. sempre habitara os umbrais. os olhos meigos a olharam. sem implorar. sem pedir. sem falar. eles entenderam este momento. as mãos se deram. ele de uma contorção, um espasmo,uma contração quase mortal, levantou-se e a seguiu. ela sabia que resgatara mais um. voltou. desceu. fechou. dormiu. os pequenos brilhantes rondavam seu sonho sem que ela soubesse por quê!
terça-feira, 14 de setembro de 2010
O Tamanho das Pessoas
Uma pessoa é enorme para você, quando fala do
que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito,
quando olha nos olhos e sorri destravado.
É pequena para você quando só pensa em si mesma,
quando se comporta de uma maneira pouco gentil,
quando fracassa justamente no momento em que teria
que demonstrar o que há de mais
importante entre duas pessoas:
A Amizade,
O Respeito,
O Carinho,
O Zelo,
E até mesmo o Amor.
Uma pessoa é gigante para você quando se interessa
pela sua vida, quando busca alternativas para o seu
crescimento, quando sonha junto com você.
E pequena quando desvia do assunto.
Uma pessoa é grande quando perdoa,
quando compreende, quando se coloca no lugar do outro,
quando age não de acordo com o que esperam dela,
mas de acordo com o que espera de si mesma.
Uma pessoa é pequena quando se
deixa reger por comportamentos clichês.
Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza
ou miudeza dentro de um relacionamento,
pode crescer ou decrescer num espaço
de poucas semanas.
Uma decepção pode diminuir o tamanho de
um amor que parecia ser grande.
Uma ausência pode aumentar o tamanho
de um amor que parecia ser ínfimo.
É difícil conviver com esta elasticidade:
as pessoas se agigantam e se encolhem
aos nossos olhos. Nosso julgamento é feito
não através de centímetros e metros,
mas de ações e reações, de expectativas e frustrações.
Uma pessoa é única ao estender a mão,
e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma.
O egoísmo unifica os insignificantes.
Não é a altura, nem o peso, nem os músculos
que tornam uma pessoa grande...
...é a sua sensibilidade, sem tamanho...
Willian Shakespeare
Uma pessoa é enorme para você, quando fala do
que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito,
quando olha nos olhos e sorri destravado.
É pequena para você quando só pensa em si mesma,
quando se comporta de uma maneira pouco gentil,
quando fracassa justamente no momento em que teria
que demonstrar o que há de mais
importante entre duas pessoas:
A Amizade,
O Respeito,
O Carinho,
O Zelo,
E até mesmo o Amor.
Uma pessoa é gigante para você quando se interessa
pela sua vida, quando busca alternativas para o seu
crescimento, quando sonha junto com você.
E pequena quando desvia do assunto.
Uma pessoa é grande quando perdoa,
quando compreende, quando se coloca no lugar do outro,
quando age não de acordo com o que esperam dela,
mas de acordo com o que espera de si mesma.
Uma pessoa é pequena quando se
deixa reger por comportamentos clichês.
Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza
ou miudeza dentro de um relacionamento,
pode crescer ou decrescer num espaço
de poucas semanas.
Uma decepção pode diminuir o tamanho de
um amor que parecia ser grande.
Uma ausência pode aumentar o tamanho
de um amor que parecia ser ínfimo.
É difícil conviver com esta elasticidade:
as pessoas se agigantam e se encolhem
aos nossos olhos. Nosso julgamento é feito
não através de centímetros e metros,
mas de ações e reações, de expectativas e frustrações.
Uma pessoa é única ao estender a mão,
e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma.
O egoísmo unifica os insignificantes.
Não é a altura, nem o peso, nem os músculos
que tornam uma pessoa grande...
...é a sua sensibilidade, sem tamanho...
Willian Shakespeare
domingo, 12 de setembro de 2010
um minuto de silêncio ...
minha voz se cala. alguma coisa em mim emudeceu. são momentos. talvez a contemplação. talvez a inquietude em demasia. talvez a falta de rumo. talvez a dor de saber que não mais verei um amigo. nunca mais. essa certeza absoluta me angustia. sempre esperei o sorriso dele. se ouvia a voz, ia ao seu encontro. o perfume. o olhar. o sorriso. acho que isso me emudeceu porque ele emudeceu, pra sempre. ele já faz falta na minha memória. fará falta no meu trabalho. foram 17 anos dia após dia. mas ele não era mais um . era um e único. PETER PAUL! como não brincar com ele, abraçar, dar um beijo e sorrir com o sorriso maroto dele. ele se foi. eu emudeci. emudeci porque sei que pessoas assim estão cada vez mais raras. sei que encontrar um como ele é difícil . caráter, bondade, paz, paciência, voz mansa nas horas mais difíceis. e o carinho. como esquecer o carinho de sempre. de todos os dias. ele não estará mais la. se foi, de repente, feliz. mas se foi. emudeci. por que sei que aquele abraço não mais vai estar la. nem o perfume. muito menos o sorriso. então, agora , emudeço, e tento entender mais esta ausência repentina. é assim a vida. rápida. uma foice que ceifa tudo o que ve na frente. basta estar vulnerável. penso nele. penso naquele momento estático que presenciei. sim, fui ver o que restara de sopro de vida do meu amigo. restara um sorriso. pra onde foi esse sorriso? a memória se apaga. o tempo a tudo apaga. mas ele está aqui ainda no meu ofalto, no meu olhar e no abraço carinhoso que ainda sinto.
domingo, 5 de setembro de 2010
f i l i g r a n a s
que beleza! nunca se vira tão rodeado de belezas. o cheiro das melhores fragâncias o acompanhavam aonde quer que fosse. ouvia o tilintar de taças. saltos andavam sobre tapetes persas. cortinas esvoaçantes deixavam transparecer as luzes que iluminavam o jardim. o que dizer da mesa bem posta e dos candelabros de prata. particularmente chamavam a atenção de quem num arroubo romântico, imaginava as cenas mais excitantes! as velas acesas de cor vermelha. as chamas pareciam querer acompanhar a dimensão daquele instante. moviam-se de um lado ao outro numa dança suave. olhou para o grande lustre que a tudo cobria com cristais que brilhavam projetando diamantes nas paredes brancas. perfeito! entrara num mundo perfeito. o cintilante das roupas contrastavam com o opaco dos móveis bem colocados cada qual no lugar certo. exato. harmoniosamente. lembrou das filigranas. sim, recebera um convite ornado em filigranas. nunca esperara. não nestas épocas. a sala transparecia atemporalidade. rostos lívidos, suaves, quase transparentes passavam de um lado ao outro. pareciam não olhar. nada se tocava. talvez para não quebrar o encanto. uma música de fundo vinha não se sabia de onde. não havia nome ou definição. a melodia parecia encantamento. êxtase. clímax. ao ouvi-la, transportou-se ao jardim num magnetismo mágico. viu-se entre árvores grandes e chafarizes ainda maiores. do lado de fora tudo parecia maior. suntuoso. brilhante. sim, havia um brilho especial em tudo. perguntava-se o tempo todo por que estaria lá. como parara naquele lugar atemporal? indefinido? percorreu espaços entre flores e monumentos. entre escadas, subidas e descidas. num dado momento parou. colocou a taça onde até então bebera algo. tinha uma cor rosada. de um sabor único, bebeu tudo. sentou. avistava todo o jardim. o caminho longo até a casa com colunas neo clássicas. pessoas iam e vinham num andar calmo e suave. percebia que algo dentro dele o fazia maior. mais denso. intenso. um novo sentimento foi tomando conta. quase chorou. suas mãos pareciam mais pesadas. seu cérebro parara. tudo nele era aquele momento. instantes de frescura, ternura e deleite. levantou em direção à grande casa. viu que ao seu encontro alguém vinha. trazia numa bandeija uma taça de cor verde. ofereceu-lhe. a taça delgada parecia querer alcançar o céu. estendeu a mão pesada e a pegou. teve medo de quebrá-la, pois sentia que algo nele contrastava com a lezeza daquele objeto. segurou-a. levando à boca sentiu nos lábios algo muito bom. tomou um gole. desceu o líquido. parecia ver o trajeto dele. ouvia o som que fazia ao descer. isto lhe impressionou. tomou mais um gole. olhou para o céu e viu nele um clarão se abrir. de um dourado intenso! desciam seres um a um. não podia acreditar. tentou se aproximar. percebeu que o que via era uma projeção de algo que se dava muito longe dali. ele os via como se estivessem próximos, num campo enorme e gramado que finalizava aquele lindo jardim. tomou mais um gole do líquido verde. saiu a correr como se fosse alcançar cada um deles que descia. ao chegar no campo gramado nada encontrou. o clarão de luz dourada se desfizera num passe de mágica. os seres que vira descer, um a um, não estavam mais. respirou fundo e tentou olhar as luzes que ao longe iluminavam aquela casa e as pessoas que nela estavam. deu meia volta e, no mesmo lugar, a taça. tomou o último gole de cor verde e retornou à varanda com colunas neo clássicas. admirado viu casais que juntos rodopiavam sem tocar o chão! leves, soltos, livres da matéria. olhou o lustre que girava também. tentou se apoiar em algo. não sabia se cairia ou levitaria também. surpreso ao dar o primeiro passo ao chegar à mesa, não sentiu o chão. levitava também, que sensação aquela. era levado por uma força estranha a ele. viu que taças com líquidos multicoloridos jaziam sobre a mesa. o colorido contrastava com a toalha de um fino linho branco. os pratos arranjados um ao lado do outro. com certeza em algum momento poderia ver juntos os convidados daquele lugar fantástico. a música tornou-se uma melodia crescente. aos poucos invadia as entranhas ou qualquer porão do cérebro. o volume mais alto. os giros aumentaram em força. os casais se espalharam por toda sala, varanda e jardins. ele apoiado à mesa não sentia os pés no chão. com aquela sensação de uma quase loucura estendeu a mão à taça mais próxima com um líquido azul. tomou um gole. seu olfato aguçou. sentiu que as azaléias do jardim entraram na sala. os perfumes se misturaram. inebriado pensou em movimento. sem que esperasse girou também. com leveza e força. ora mais rápido. ora mais lento. enquanto girava, a sua volta, pequenas imagens o acompanhavam. bocas que riam. olhos brilhantes e abertos. pés afastados do chão. taças coloridas em mãos brancas. as paredes claras passavam uma a uma sobre seus olhos. aos poucos o efeito de um espectro de cores, tornara-se nulo. sentiu seu corpo tão leve ao girar, que já não sabia aonde se encontrava. a sua volta via um cordão de filigranas. percebeu que a trama se fazia ali mesmo à medida que girava. quanto mais girava mais a trama numa teia incompreensível ia se formando. em camadas filigranas formavam um casulo em volta dele. a música intensa, numa melodia desconhecida aumentava em volume. via apenas o dourado das tramas que se entrelaçavam por si só. tentou fechar os olhos. mas algo o impedia. abriu novamente e via uma rede que o circundava, dourada. eram sim filigranas. pensou. as vira no convite! sentiu que seu corpo subia, envolto naquela rede mágica. era levado para fora da sala, da varanda, do jardim. subindo viu um clarão de luz dourado que se abria no céu. emudeceu. desta vez fechou os olhos e perguntou-se mais uma vez por que eu? o céu se fechou! ao longe o som de uma melodia alta e de corpos que giravam brindando o momento com taças e líquidos multicoloridos.
sábado, 28 de agosto de 2010
a fera e as feras
dizia-se que em um pequeno vilarejo um homem vivia a caçar o que ele chamava de feras. dinossauros, bichos da tasmânia, rinocerontes, raposas do hymalaia, suas preferidas. todo tipo que, por sua dimensão, ferocidade e feiura, já estavam em extinção. este homem obcecado, possuía todas as armas e armadilhas para suas presas. olha que não eram deste século mas medievais. maças, martelos, manguais, arapulcas, atiradores de pedra (catapultas), espadas, lanças, cavalos encilhados e preparados, armaduras . até parecia um cavalheiro medieval. quem o via, de longe, pensava que era. mas ao se aproximar se deparava com um homem já velho com suas armaduras carcomidas pelo tempo. mas ele insistia em caçar. estas feras, geralmente maiores que ele, davam muito trabalho! engraçado que mais do que uma verdade ele se tornou uma lenda. porque na realidade nunca ninguém vira suas caças tombadas. mas de boca em boca corria a fama. ele de armas em punho saía a caçar, a qualquer hora. esse era o seu maior prazer. diziam que, caçada a presa, ele até se compadecia por algum tempo. mas, passado o tempo pequeno do "mea culpa", a presa nada mais era do que um animal para exposição e afirmação de um poder que ele sentia já estar minguando. estes animais não se encontravam em qualquer lugar. era necessário percorrer muitos caminhos. lugarejos remotos. montanhas. entrar em cavernas escuras. para isto ele era destemido. nada o detinha. de armadura e armas em punho, diziam, ele se dirigia ao local da caçada a qualquer hora do dia. a qualquer temperatura. fizesse chuva ou sol lá estava a caminhar em direção a sua presa. ora! por que escolhera esta vida? não sabiam os demais. alguns diziam que ele carregava dentro de si monstros. muitos. um exército deles. estes, geralmente em posição militar, o incomodavam todas as noites lhe trazendo pesadelos horríveis. anos disto criou no homem velho, um perfil. meio lunático, esquizóide, ermitão, esquisito, anti social. nunca amara. nunca tivera experiências lúdicas. nunca vira por de sóis ou fizera amor até o amanhecer. dizem que isolado, calculava dia e noite, dia a dia, ano a ano, sua próxima empreitada. construía armadilhas, polia suas armas, alimentava os cavalos e saía a qualquer hora. como sabia da existência e aonde estavam os animais, não se sabia ao certo. ele era um pesquisador. bom pesquisador. diziam que no seu castelo havia máquinas modernas e equipadas de radares capazes de encontrar um animal nos mais recôntidos cantos da terra. este homem não era bem visto no lugarejo. na realidade de tanto caçar este tipo de animal, de conviver em pensamento com eles, tornou-se similar. era ele mesmo a caça que caçava. era ele mesmo o animal que procurava. era ele mesmo diziam os mais sábios! de fora, viam nele estampado os animais que caçava. os animais caçados, por sua vez, pouco a pouco, passaram a sentir por seu algoz algo familiar. começaram a se identificar com ele. assim como muitas vezes o torturado estabelece um laço afetivo com o seu torturador. com o tempo e a velhice chegando este homem foi se dando conta disto. ao caçar a fera, a mesma se afeiçoava a ele. isto o perturbava. afinal, afeição só poderia existir se houvesse uma similaridade. ele era um homem inteligente mas negava sua própria condição de fera! dizem que certa vez levara ao castelo um animal da tasmânia. assustado se deu conta de que não havia um enfrentamento. uma luta. ou tentativa de fuga. o animal, feroz, permaneceu passivo e quieto aos seus pés. com um olhar até mesmo doce para aquele cavalheiro decaído. ele não aceitava. tinha que haver o combate, a provocação, o enfrentamento. assim poderia usar suas armas fatais. não o agradava desferir um golpe num ser passivo, resignado e quase amorosamente relacionado. isso tirava todo o poder e símbolo de força do ato de caçar e do caçador. mas dizem que repetidamente os animais se identificavam com o homem. e, fantasticamente, os habitantes começaram a presenciar uma caminhada freqüente de animais exóticos e assustadores em direção ao castelo. as feras caçadas começaram a ir em direção ao caçador. resignadamente. passivamente. mansamente. o homem, enlouquecido, desferia golpes por todos os lados. algumas feras tombavam. mas como eram a maioria, a andança prosseguia sem que ele, racionalmente, se desse conta do que ocorria de fato. dizem alguns que se ouviram berros vindos do castelo por muito tempo. os habitantes contam que nunca mais viram o homem com armadura e armas em punho a caçar. dizem que as feras rondavam o castelo dia e noite. e, aprisionado, o caçador virou a caça. fruto de uma identificação doentia talvez. ninguém explicava. e este fato se tornou uma lenda, até mesmo uma atração para o lugarejo. alguns contam que por anos. o homem trancafiado e as feras ao redor. dinossauros. bichos da tasmânia. rinocerontes, raposas do hymalaia, muitas delas, entre outros. até que numa tarde de agosto viram um cortejo seguir caminho abaixo. o que restara do homem caçador era levado pelas feras obedientemente enfileiradas para o cemitério mais longe da cidade.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
CÓDIGOS
a vida pode ser feita de códigos, silenciosos, mas, o extremo de interpretá-la através deles, pode, em alguns casos, talvez, levar à esquizofrenia, à psicose, a um delírio persecutório, ou, quem sabe, até mesmo a um colapso, por que não?
sentado à frente da TV já não ouvia o som das vozes. apenas os lábios se mexiam silenciosamente. olhou para mulher e as filhas, sentadas ao sofá. pareciam ouvir algo que ele há tempos não mais ouvia. era silêncio. a princípio constrangedor. mas, foi-se "acostumando". hei! está me ouvindo? sabia que alguém lhe chamava. por hábito respondia sim sim. mas na verdade não sabia da onde vinha. percebia o olhar irado da mulher. as filhas a olharem daquele jeito com desdém. naquele dia, particularmente, a família se reunira à frente da TV. até se reuniam, em dois, três mas nunca os quatro. haveria algo de especial? a mulher, olhos cansados de óculos, tecia uma trama com agulhas. uma das filhas, aquele chiclete na boca, olhava para um espaço indefinido. não se sabia se para TV. a mais velha, compenetrada, observava os movimentos, as luzes ou as chamadas comerciais, suspirando e cruzando pernas. e, ele, sentado em sua poltrona especial. se sabia ausente. se sabia diferente. por que não percebiam? tentou numa atitude vã chamar a mulher. hã? ... silêncio. perguntou à filha do chiclete displicente, sobre a escola. agora não, vai começar! à filha mais velha, dirigiu um olhar, não correspondido, já que ela estava paralisada e estática com as imagens repetidas na TV. e ele? os sons não chegavam ao seu ouvido. aquele silêncio, enlouquecedor, aumentava dia a dia. a TV não era sua aliada, já que apenas via lábios que se moviam. às vezes um cruzar de pernas, um estourar de bolas de chicletes, um suspiro ou um bater de agulhas. era o que ouvia. sons repetidos e habituais. tentou imaginar os grunhidos dos homens das cavernas. ao menos se comunicavam. de repente aquele zumbido! mais uma vez olhou para mulher num apelo mudo. pára de se mexer tanto! dizia. tentou conter os movimentos que involuntariamente fazia. talvez fosse uma compensação para aquele quadro de espectros de pessoas sem conteúdo. não tinha outra explicação. mais um olhar à filha mais velha. o quê? hã? espera! a do chiclete, via crescer a bola. rosa. transparente. cada estouro similar a uma bomba. colocou as mãos no ouvido. nenhuma das três olhou. ou notou algo diferente. psiu! vai começar! o que começaria? olhava a TV. via imagens patéticas de coisas que não conseguia mais decifrar. perdera o fio da meada? o som daquela caixinha era-lhe imperceptível. até tentava, num esforço gigantesco, ouvir. nada. mudez. silêncio. assim era isolado do resto. pareciam fazer de propósito. com isto restava-lhe a bola que estourava, as agulhas a baterem uma na outra ou o suspiro da filha mais velha. horas intermináveis sentado naquela cadeira especial. mas por que não tomava uma atitude? a paralisia tomara conta de si. dia após dia o bater das xícaras nos pires, os talheres nos pratos, a água dos banhos, o ruído da máquina de lavar, os saltos dos sapatos no assoalho, o rufar das roupas mais leves, o cuspir da pasta de dente, algo que fritava na cozinha e, a TV ligada em silêncio, ao menos para ele. essa conjunção de sons foi tomando uma dimensão tamanha que, em vão, tentava se comunicar em meio a estes ruídos costumeiros. hã? o quê? o que é?! eram as respostas. aos poucos uma nova leitura começou a fazer parte do seu cotidiano. a cada som familiar começou a se desenhar um certo timbre, uma certa freqüência, um certo seilá o quê que, quer ele quisesse ou não, lhe diziam algo muito peculiar. as agulhas a baterem ritmadas, ou descompassadas, alto ou mais baixo lhe falavam da mulher. do seu estado de espírito e, principalmente da sua sempre inexistência. as bolas que estouravam na boca da filha, mostravam o vazio dos seus pensamentos, tão desconexos que estouravam ao ar dada a pequena consistência de cada um deles. ah! e o que dizer daqueles suspiros da mais velha! ou daquele cruzar e descruzar de pernas incessantes a cada mudança de comercial? a espera. a espera sempre impaciente por nada. isso lhe deixava a certeza do quadro caótico que se desenhava em seu cotidiano, numa cadência muda. dentro dele crescia silêncio. apatia. desconforto. batia portas, abria armários, deixava cair talheres numa tentativa desesperada de se comunicar. psiu! não faz barulho! hã? o quê? agora não! vai começar! o que começaria? olhava para TV e os lábios se moviam pateticamente. não ouvia mais. decididamente, estes não eram seus códigos. mas por que ouvia intermitantemente os talheres, as águas que corriam, os sapatos no assoalho, as bolas que estouravam, as agulhas, os suspiros? POR QUÊ? dentro dele, feito germe, crescia uma raiva contida. um desprezo quase imperceptível. uma vontade inumana de explodir! virou-se e revirou-se na poltrona. fez uma tentativa de se levantar. os três pares de olhares se dirigiram a ele. agora não! vai começar! o que meu deus, o que começaria!? resignado, permaneceu sentado. mas algo dentro crescia. descontrole!? de repente os olhos ficaram maiores, as agulhas pareciam espadas, as bolas estouradas de um barulho ensurdecedor, transformaram-se em bombas atiradas de aviões de guerra. e o que dizer dos suspiros? pareciam fazer dentro dele um buraco de alma causando uma dor intensa. olhou em volta. tentando ouvir palavras, frases inteiras, pensamentos lógicos e...hã? o quê? ... psiu! vai começar! suava frio. suas mãos tremiam mesmo que tentasse segurar uma na outra. o que foi? é que...psiu! vai... bum! estourou mais uma bola. aquilo ecoouu no seu cérebro como se estivesse numa enorme caverna vazia. tomando conta de cada canto, cada neurônio, cada fio de razão, desfazendo uma a uma qualquer sinapse. desconectou! algo dentro explodira. ainda vira umas pernas que se cruzavam ou uns últimos suspiros ou algo parecido com o bater de agulhas antes que caísse de lado na poltrona. estático. olhos esbugalhados, braços estendidos ao lado. naquela atitude peculiar de quem se fora! os três pares de olhares se dirigiram a ele. em coro, quase que ensaiado... hã? o que foi? psiu! quieto! vai começar!
sentado à frente da TV já não ouvia o som das vozes. apenas os lábios se mexiam silenciosamente. olhou para mulher e as filhas, sentadas ao sofá. pareciam ouvir algo que ele há tempos não mais ouvia. era silêncio. a princípio constrangedor. mas, foi-se "acostumando". hei! está me ouvindo? sabia que alguém lhe chamava. por hábito respondia sim sim. mas na verdade não sabia da onde vinha. percebia o olhar irado da mulher. as filhas a olharem daquele jeito com desdém. naquele dia, particularmente, a família se reunira à frente da TV. até se reuniam, em dois, três mas nunca os quatro. haveria algo de especial? a mulher, olhos cansados de óculos, tecia uma trama com agulhas. uma das filhas, aquele chiclete na boca, olhava para um espaço indefinido. não se sabia se para TV. a mais velha, compenetrada, observava os movimentos, as luzes ou as chamadas comerciais, suspirando e cruzando pernas. e, ele, sentado em sua poltrona especial. se sabia ausente. se sabia diferente. por que não percebiam? tentou numa atitude vã chamar a mulher. hã? ... silêncio. perguntou à filha do chiclete displicente, sobre a escola. agora não, vai começar! à filha mais velha, dirigiu um olhar, não correspondido, já que ela estava paralisada e estática com as imagens repetidas na TV. e ele? os sons não chegavam ao seu ouvido. aquele silêncio, enlouquecedor, aumentava dia a dia. a TV não era sua aliada, já que apenas via lábios que se moviam. às vezes um cruzar de pernas, um estourar de bolas de chicletes, um suspiro ou um bater de agulhas. era o que ouvia. sons repetidos e habituais. tentou imaginar os grunhidos dos homens das cavernas. ao menos se comunicavam. de repente aquele zumbido! mais uma vez olhou para mulher num apelo mudo. pára de se mexer tanto! dizia. tentou conter os movimentos que involuntariamente fazia. talvez fosse uma compensação para aquele quadro de espectros de pessoas sem conteúdo. não tinha outra explicação. mais um olhar à filha mais velha. o quê? hã? espera! a do chiclete, via crescer a bola. rosa. transparente. cada estouro similar a uma bomba. colocou as mãos no ouvido. nenhuma das três olhou. ou notou algo diferente. psiu! vai começar! o que começaria? olhava a TV. via imagens patéticas de coisas que não conseguia mais decifrar. perdera o fio da meada? o som daquela caixinha era-lhe imperceptível. até tentava, num esforço gigantesco, ouvir. nada. mudez. silêncio. assim era isolado do resto. pareciam fazer de propósito. com isto restava-lhe a bola que estourava, as agulhas a baterem uma na outra ou o suspiro da filha mais velha. horas intermináveis sentado naquela cadeira especial. mas por que não tomava uma atitude? a paralisia tomara conta de si. dia após dia o bater das xícaras nos pires, os talheres nos pratos, a água dos banhos, o ruído da máquina de lavar, os saltos dos sapatos no assoalho, o rufar das roupas mais leves, o cuspir da pasta de dente, algo que fritava na cozinha e, a TV ligada em silêncio, ao menos para ele. essa conjunção de sons foi tomando uma dimensão tamanha que, em vão, tentava se comunicar em meio a estes ruídos costumeiros. hã? o quê? o que é?! eram as respostas. aos poucos uma nova leitura começou a fazer parte do seu cotidiano. a cada som familiar começou a se desenhar um certo timbre, uma certa freqüência, um certo seilá o quê que, quer ele quisesse ou não, lhe diziam algo muito peculiar. as agulhas a baterem ritmadas, ou descompassadas, alto ou mais baixo lhe falavam da mulher. do seu estado de espírito e, principalmente da sua sempre inexistência. as bolas que estouravam na boca da filha, mostravam o vazio dos seus pensamentos, tão desconexos que estouravam ao ar dada a pequena consistência de cada um deles. ah! e o que dizer daqueles suspiros da mais velha! ou daquele cruzar e descruzar de pernas incessantes a cada mudança de comercial? a espera. a espera sempre impaciente por nada. isso lhe deixava a certeza do quadro caótico que se desenhava em seu cotidiano, numa cadência muda. dentro dele crescia silêncio. apatia. desconforto. batia portas, abria armários, deixava cair talheres numa tentativa desesperada de se comunicar. psiu! não faz barulho! hã? o quê? agora não! vai começar! o que começaria? olhava para TV e os lábios se moviam pateticamente. não ouvia mais. decididamente, estes não eram seus códigos. mas por que ouvia intermitantemente os talheres, as águas que corriam, os sapatos no assoalho, as bolas que estouravam, as agulhas, os suspiros? POR QUÊ? dentro dele, feito germe, crescia uma raiva contida. um desprezo quase imperceptível. uma vontade inumana de explodir! virou-se e revirou-se na poltrona. fez uma tentativa de se levantar. os três pares de olhares se dirigiram a ele. agora não! vai começar! o que meu deus, o que começaria!? resignado, permaneceu sentado. mas algo dentro crescia. descontrole!? de repente os olhos ficaram maiores, as agulhas pareciam espadas, as bolas estouradas de um barulho ensurdecedor, transformaram-se em bombas atiradas de aviões de guerra. e o que dizer dos suspiros? pareciam fazer dentro dele um buraco de alma causando uma dor intensa. olhou em volta. tentando ouvir palavras, frases inteiras, pensamentos lógicos e...hã? o quê? ... psiu! vai começar! suava frio. suas mãos tremiam mesmo que tentasse segurar uma na outra. o que foi? é que...psiu! vai... bum! estourou mais uma bola. aquilo ecoouu no seu cérebro como se estivesse numa enorme caverna vazia. tomando conta de cada canto, cada neurônio, cada fio de razão, desfazendo uma a uma qualquer sinapse. desconectou! algo dentro explodira. ainda vira umas pernas que se cruzavam ou uns últimos suspiros ou algo parecido com o bater de agulhas antes que caísse de lado na poltrona. estático. olhos esbugalhados, braços estendidos ao lado. naquela atitude peculiar de quem se fora! os três pares de olhares se dirigiram a ele. em coro, quase que ensaiado... hã? o que foi? psiu! quieto! vai começar!
Assinar:
Postagens (Atom)